Quadrinhos no Meio Editorial

4:50 pm Autores de HQ

Para quem publica seus quadrinhos de maneira independente e acredita que o caminho para a felicidade está nas grandes editoras, uma supresa: as vida de quem trabalha do lado de lá não é só de flores.

Miss Muffin, que trabalha há algum tempo em uma grande editora brasileira, descasca esse abacaxi e conta como começou sua carreira e os prós e contras. A seguir.

Olá!

Estou aqui a convite do Danilo, para falar sobre a minha experiência com quadrinhos infantis numa grande editora. Não vou dizer o nome dessa editora por questões profissionais, mas é fácil deduzir. Devo também deixar claro que não sou funcionária dessa editora. Eu sou uma “colaboradora fixa”. Isso quer dizer: trabalho como uma funcionária, cumpro horários e tenho obrigações, mas SEM VÍNCULO EMPREGATÍCIO. Só este ano conquistei direito a férias. Não tenho refeições e nem condução subsidiadas, nenhum benefício, nem fundo de garantia.

Então, saibam que nem sempre estar dentro de uma editora de grande porte é sinônimo de segurança. Bem, essa é a DESVANTAGEM.

Agora vou falar das VANTAGENS:
Poder chegar no trabalho às onze da manhã e ninguém te olhar feio.
Festas e muita comilança. Aprender (e muito!) com excelentes profissionais – designers, ilustradores, jornalistas entre outros. Infra-estrutura para trabalhar – seu micro deu pau? Chame o help-desk. Ganhar toneladas de livros e revistas. Oportunidades e mais oportunidades, basta você querer enxergar.
…Eu poderia fazer uma lista enorme de coisas legais, mas vou resumí-las em uma frase:
Ter toda a liberdade e usá-la com bom senso.

Mas vamos ao que interessa!

O começo

Bem, dificilmente alguém entra nesse meio sem ter sido indicado por alguém.
E eu não fugi a essa regra. Ou você conhece alguém que está lá dentro ou você tem que ser muuuuuuito bom. Por isso é importante manter um bom círculo de contatos!

Começando por baixo

Nem sempre é possível começar aonde a gente gostaria. O mais difícil é entrar. Estando lá dentro, é muito mais fácil chegar aonde você quer.
Para isso é preciso sempre estar atento ao que acontece à sua volta, entender o fluxo de trabalho, conversar com as pessoas, e sempre procurar oferecer algo além do que eles esperam de você.
Quando entrei nessa editora, a pessoa que estava acima de mim me disse que eu não tinha a menor chance de ser promovida ou contratada. Hoje, a pessoa que me falou isso não está mais lá, e eu fui promovida sim, apesar de não ter sido contratada. Ou seja, nada é impossível.

Pintando HQs:

Bem, minha primeira função lá foi pintar HQs do Maurício de Souza, Ziraldo e Turma do Cocoricó.
Antes que me perguntem, eu NUNCA trabalhei no estúdio do Maurício de Souza. Eu sequer cheguei a conhecê-lo. Eu apenas fui trabalhar na editora que publicava as revistas dele. PUBLICAVA, não publica mais! Isso quer dizer que eu NÃO trabalho mais com as revistas dele, ok?

Na época, quando eu contava para as pessoas em que estava trabalhando, elas ficavam maravilhadas.  Só faltava pedirem um autógrafo meu. Oh! Quanto glamour!
Esqueça! Esse glamour não existe.

Na verdade se trata de um trabalho mais braçal do que cerebral. Estou falando especificamente da pintura das HQs do Maurício. Olha, até vou confessar que eu gostava muito. É uma coisa que remete muito à infância ficar olhando pra cara da Mônica e do Cebolinha o dia inteiro, jogando baldinho de tinta no Photoshop. Extremamente lúdico. Mas extremamente cansativo. Páginas, páginas e mais páginas. Acabou uma, pega outra. Das 8:30 até as 18:00.

Tinha meta de páginas por dia. Não podia ter acesso à Internet. E não podia ter criatividade também: o estúdio mandava um guia-cor que deveria ser seguido à risca. Depois as páginas eram revisadas pela coordenadora, e devolvidas para correção. Não podia retocar as artes, ainda que encontrasse um erro. E sim, havia uma certa discriminação. O pessoal da pintura era isolado do resto da redação. Como se fossem dua tribos diferentes.

Felizmente isso não acontece mais. Com a saída do Maurício da editora, muitas coisas mudaram, inclusive a pintura (que ficou só com Ziraldo, Sítio e Cocoricó). Hoje quem faz as pinturas são meninas (aprendizes) na faixa dos 17 anos. Elas têm bastante autonomia nas pinturas, e, a cada produto nos surpreendem com a sua facilidade em aprender novas técnicas. Elas entram lá sem saber nada de Photoshop, e saem com uma bela bagagem.

Matando a curiosidade

Pois bem, gente, pra quem tem curiosidade em saber, o esquema do Maurício é o seguinte:
Os roteiros são feitos pelo estúdio. Se não me engano ele trabalha com roteiristas contratados… mas não estou certa disso.

As artes são feitas à mão no estúdio dele, inclusive os balões e as letras. Eles mandam tudo finalizado para a editora. As artes são grandes… bem maiores do que a página da revistinha.

Na editora, as artes são digitalizadas. Após digitalizadas, as artes são passadas para a pintura. A pintura é feita 100% no Photoshop. Tem uma paleta específica do Maurício. Tem umas 70 e poucas cores, todas numeradas. Quem faz a pintura tem que decorar esses números. E, acredite, tem quem decore não só o número como também as porcentagens das cores CMYK. O estúdio manda o guia-cor. É uma cópia da página, pintada a lápis de cor (pelos coloristas do Estúdio). Tem que seguir à risca as cores que eles indicam.
Antes de pintar precisa conferir se a página está alinhada, se tem sujeirinha, essas coisas.
Depois a pintura em si!

Como vocês podem ver, não tem nada demais, e não precisa ser um gênio para fazer isso.

Já as HQs do Ziraldo, por exemplo, permitem usar um pouquinho mais de criatividade.
Os personagens (pele) são pintados com brush, e se tem liberdade para escolher as cores do cenário. O mesmo vale para Sítio do Picapau Amarelo e Turma do Cocoricó.

Os balões dessas HQs são colocados depois, no Indesign. Não são feitos na arte, como os do Maurício.

Sobre escrever roteiros para grandes autores

Bom, acho que essa parte é a mais interessante.
Depois de um ano e 3 meses na pintura, passei para a diagramação das HQs. Isso quer dizer montar balões, linkar as histórias, enfim, montar a revista em si. Essa atividade me levou a ter mais contato com o resto da redação. Eu também tinha acesso aos roteiros das HQs, já que era necessário conferir se as artes estavam de acordo com o roteiro. Adorava ler os roteiros! Achava muito mais legal o roteiro desenhado do que a HQ pronta.

Tinha meus roteiristas favoritos também.
Um dia, uma das editoras me disse que estava precisando urgentemente de novos roteiristas. Perguntou se eu tinha interesse, ou se tinha alguém pra indicar. Porque os roteiros estavam fracos, porque as revistas não estavam vendendo direito, blá blá blá…

Aí pensei… WOW! E fui me meter a roteirista!
Os roteiros eram encomendados de acordo com a necessidade. Personagem tal, tantas páginas. Assim funcionava com todos os produtos na época: Turma do Maluquinho, Turma do Sítio e Turma do Cocoricó. Por que esse critério? Porque eles tinham que fechar a revista com o número certo de páginas, e um certo equilíbrio de personagens.

Os roteiros tinham que ser desenhados, e estavam sujeitos não só à aprovação dos editores, mas também pelo estúdio do Ziraldo, Globo Marcas e Cultura Marcas (dependendo do produto).
Ele também podia ser reprovado, ou precisar de mudanças.

E os roteiros eram analisados sob certos critérios. Nestas famílias de personagens, especificamente, não pode haver violência (coisa permitida no Maurício), os personagens não podem fazer nada que uma criança não deva fazer. Nada que ofereça perigo. Não podem mexer com objetos cortantes, fogo, essas coisas. Nada de temas polêmicos também. São HQs politicamente corretas.

Então o roteirista tem que prestar muita atenção nesses detalhes se quer ter o seu roteiro aprovado e seu dindim no bolso.
Aliás, essa parte até que era bastante interessante.
Também cheguei a escrever roteiros para os livros de HQs do Simão (Desenho exibido na Tv Cultura). Esses eram os mais legais, pois eram fáceis de se fazer e desenhar. O personagem permitia fazer muitas coisas. Praticamente tudo podia acontecer, os maiores absurdos (claro, sem as coisas não-corretas). Mas ele podia ir à lua, podia falar com o poste, podia sair voando, enfim… uma coisa mais livre.

Por que acabou?

Porque eu estava sujeita ao mercado editorial. Quem manda é ele. Então, de uma hora para outra ele pode exterminar o produto no qual você estava trabalhando arduamente. Assim, sem avisar… e azar seu! Da mesma maneira que o trabalho pode cair do céu, ele pode evaporar!
A editora decidiu acabar com as revistas, pois não estavam vendendo bem. Passamos então a produzir apenas livros de HQs. Com isso, muita gente foi prejudicada. No meu caso, era apenas uma renda a mais. Mas a maioria dos roteiristas ganhavam a vida fazendo isso. Nessa hora, não tem outro jeito… Tem que se virar. Ir atrás de outras editoras, outros estúdios. Não fiz isso porque não vi necessidade.

Hoje em dia, tenho novos projetos. Até posso voltar a fazer roteiros se surgir uma oportunidade. Mas essa não é a minha prioridade no momento.

Bom, espero que tenha sido útil, ou pelo menos tenha matado a curiosidade de vocês!

Miss Muffin

Foi muito útil, Senhorita! Obrigado por sua contribuição.
Para quem quiser conhecê-la melhor, basta acompanhar o seu ótimo blog: Sopa de Letrinhas.

10 Comentários

  1. Helio Jenné Says:

    Olá Danilo e Miss Muffin, gostei muito do artigo. Apesar de não ser desenhista, iniciei como arte-finalista na já falecida Editora Vecchi, no Depto. de Publicações Infanto-juvenis. Foi uma experiência maravilhosa, onde conheci grandes artistas. Em pouco tempo virei tradutor, mas aprendi a amar esse mundo. Criei alguns personagens e ainda tenho fé que um dia encontrarei meios de publicá-los.
    Abração!

  2. Humor (é) para poucos | Histórias em Quadrinhos - HQs de Daniel • DS.art.br Says:

    [...] Inclusive a sra. Muffin escreve como é baba viver no mercado editorial de HQs. [...]

  3. Juniupaulo Says:

    Massa mesmo. Bom saber esses detalhes.

  4. Pacha Urbano Says:

    Ótimo post, principalmente para alguém como eu que gostaria muito de entrar para este mercado editorial.

  5. Vida de Quadrinhista » Blog Archive » Mais uma que cai Says:

    [...] ao que interessa. Já foi falado aqui sobre a dificuldade de se manter no mercado editorial de quadrinhos. E isso não é só com os [...]

  6. lucivande Says:

    achei muito legal esta entrevista,muita gente tem realmente curiosidade de como funcionam as coisas “por tras” das revistas.

  7. Recent Faves Tagged With "quadrinhos" : MyNetFaves Says:

    [...] 1 days ago Quadrinhos Disney cancelados na Europa First saved by iamshimone | 4 days ago Quadrinhos no Meio Editorial First saved by tosboy | 10 days ago Oscar dos quadrinhos para o Brasil First saved by [...]

  8. Ede Oliveira Says:

    Querida, fiquei contente de ver alguem vivendo profissionalmente de HQ, esse é um sonho que eu não ia realizar pois não conhecia o universo de HQ, não tenho tecnica, não tive um unico curso sequer mas minha esposa adorava mostrar meus desenhos. Gostava tambem das historias que eu criava e tambem dos 11 concursos de poesia que ganhei. Eu ia seguir com o curso de Direito, mas ela tem dado força é para seguir meu talento e fazer HQ, nem que eu complemente a renda fazendo personagens para embalagens, campanhas publicitárias etc…mas HQ realmente foi algo que me despertou desde pequeno ( nem tanto ler, mas fazer )

  9. Toni Says:

    Puxa…
    Como é trabalhoso.
    É uma pena que neste campo seja tão cheio de barreiras.

  10. Adrix Says:

    Olá,

    Gostei muito deste texto, passa como é a vida do outro lado das editoras, realmente é um trabalho como qualquer outro, mostra a realidade sem glamourizar.

    Muito bom,

    Gde abraço

    Adrix

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Comentário

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